Bruno Duarte: In Memoriam
Entrevista completa concedida durante o Festival Confluências #10
“A morte é um convite ao mesmo tempo pra gente saber como renascer. É um convite para a luta. É um convite para resistir. Tem ruínas, mas a gente pode crescer em cima disso, renascer em cima disso.” Bruno Duarte, entrevista concedida durante o Festival Confluências #10 n’A Casa de Vidro, Janeiro de 2025, despedida da sede demolida.
O músico e agente cultural Bruno Duarte (@ladobruno), frequentador e colaborador d’A Casa de Vidro e da OCLAM, estudante da licenciatura em Música do IFG-Goiânia, foi morto a facadas no Bosque dos Buritis em Goiânia pelo psicólogo Arthur Silva Lima, servidor do IFG-Águas Lindas, no sábado, 26 de Julho de 2025. O caso foi noticiado por Jornal Anhanguera (Globo), Cidade Alerta (R7), Metrópoles, G1, O Popular etc.
Esta é a íntegra da entrevista concedida por Bruno a Pedro Paranhos durante o Festival Confluências #10 (https://acasadevidro.com/confluencias10/), gravada na livraria do nosso Ponto de Cultura, no último evento em nossa sede no Setor Universitário antes da mudança e da demolição.
O jornal Correio de Santa Maria publicou transcrição de alguns trechos desta tocante entrevista:
“Meus pais me ensinaram a cultivar esse amor pela música. Minha mãe canta. Meu pai toca violão. E eles são músicos ao modo deles. Mas são músicos. E acho que daí eu começo a permear e construir minhas relações afetivas, por meio da música. Desde o ventre da minha mãe, ouvia Sultans of Swing do Dire Straits”, emenda. Ainda na gravação, Bruno afirma que, quando estava com um amigo, queria tocar com ele e, quando estava apaixonado, queria compor para ela.
“Isso começou a ganhar mais força na adolescência. O primeiro evento em que me envolvi foi em uma igreja neopentecostal, no Cidade Jardim, e tinha uma bandinha de grunge, que só fazia cover de Nirvana. O Igor [colega de banda] tinha um amigo, cujo pai era pastor, e ele foi viajar. Ele disse que estava com a igreja vazia (…) e chamei algumas bandas para tocar.”
Para ele, trabalhar com música era uma forma de demonstrar os sentimentos. “Eu não trabalho com música para puramente me sustentar. É para naquele instante, naquela magia da música, de algum modo consagrar e eternizar o amor que eu tenho pelas pessoas que divido aquele momento e reviver aquele sentimento que tenho. É um barato trabalhar com música. Você pode estar triste e demonstrar tristeza, estar alegre e demonstrar alegria. Mas quem só pensa em dinheiro não tem essa vantagem.” (https://correiodesantamaria.com.br/cantor-atacado-e-morto-no-bosque-dos-buritis-aprendeu-o-amor-pela-musica-com-os-pais/)
URLS DESTE VÍDEO: https://youtu.be/DnP-9aUU4H4 e https://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/710545078478814


GRAFAR A VIDA FENECIDA ou EM TUA MEMÓRIA – Por Eduardo Carli de Moraes
Abalado pela perda, horrorizado com o crime, me ponho a grafar a bíos de Bruno neste momento de tragédia, como uma forma de honrar o legado da pessoa que se foi. Havia tanta promessa para que no futuro seguíssemos escrevendo canções juntos – nossa primeira e única parceria, “Traço De Giz Pela Chuva Lavado”, ainda carece de gravação e possivelmente será incorporada ao repertório da Azul em Transe. Havia tanto horizonte pra Bruno estar junto das jams, dos ensaios, das gigs do futuro próximo. Eis algumas contribuições para a elaboração da biografia desta vida abruptamente interrompida a partir de vivências que partilhei com ele:
Fomos colegas no estudo de violão clássico, por volta de 2010-2013, e posso relembrar: BRUNO DUARTE foi estudante de violão clássico das Oficinas de Música da EMAC-UFG por alguns anos, sob orientação do Prof. Rodrigo Carvalho, onde desenvolveu aptidões para a performance de obras de compositores como Tárrega, Léo Brouwer, Fernando Sor, J. S. Bach, tendo demonstrado grande maestria no aprendizado do Método Henrique Pinto. Cursava, nos últimos anos, a Licenciatura em Música no IFG câmpus Goiânia, e estava elaborando seu T.C.C.; estava em estágio avançado de tratativas para tornar-se em breve o professor de violão da escola de música do Ponto de Cultura A Casa de Vidro.



Salvo engano, o evento OCLAM NAS CASAS n’A Casa de Vidro foi o primeiro e único show do Bruno Duarte como artista solo na nossa cena (ele também atuou como músico de apoio em vários shows de outros artistas.) A apresentação foi gravada na íntegra e também soltamos um vídeo menor com alguns melhores momentos:
Outro elemento dilacerante da morte do Bruno é que ele fazia vários movimentos pra se tornar cada vez mais colaborador dA Casa de Vidro, onde se sentia muito acolhido e onde podíamos nutrir nossa longa amizade: estávamos combinando pra que ele começasse a dar aulas de violão e ele havia inclusive iniciado um grupo dr zap com os potenciais aprendizes, pra combinar turmas e horários. É também o Bruno enquanto educador musical emergente que perdemos. E a gente sabe: o cara tocava muuuito.

Na Mostra de Composição da OCLAM, segunda edição, ocorrida na FETEG, Goiânia, em 10 de Novembro de 2024, filmada e postada na íntegra por A Casa de Vidro, ele participou duas vezes: interpretou “Minto” (de Artu e Kleuber Garcêz, 30min37s, assista aqui) e tocou violão para DELÍRIO cantar sua canção “Maria” (02h07min50s, assista aqui).

Bruno Duarte estev fortalecendo os ensaios do LÂMPADA MÁGICA como músico convidado, tocando guitarra no processo de elaboração da canção de protesto de Willian Haubert, “A Casa Vai Cair”, apresentada ao público do Confluências #10, música que evoca o fim-de-ciclo do Ponto de Cultura A Casa de Vidro às beiras da demolição. Nos vídeos a seguir, registro de um ensaio, de uma entrevista e do show com Bruno enquanto guitarrista do Lâmpada:
Na ocasião, Bruno escreveu: “Cada vez mais quero ser menos chamado de artista. Prefiro que me chamem de amigo. Isto mesmo. Quero ser apenas amigo. Brother. Chapa. Parceiro. Tem bem menos concorrentes, não tem sindicato, não precisa emitir nota nem declarar no imposto de renda. Escolho portanto a boa parte, e esta nunca me será tirada.”
Na companhia de Pedro Paranhos e da cantora Luana, gravou em nosso estúdio uma versão extravagante, dissonante, experimental, de “Mania de Vc” de Rita Lee. Na ocasião, ele escreveu: “Sem o poder criativo da improvisação, sem a iminência do erro, sem um forte elemento de risco, a melodia deixa de me levar à alma da canção, para ficar sendo apenas mais outra melodia – ou, dito de outra forma: a música mesmo cantada sem a expressão de um grupo, através de um coletivo de mentes e corações acesos pode ser qualquer coisa, menos a música que eu busco. A música que tanto amo. Trecho de ensaio com @lumedelua e @lapedroparanhos na @acasadevidro_pontodecultura.”

Bruno adorava uma jam. Músico de formação sólida, era capaz de se aventurar para além da zona de segurança das cifras, tablaturas e partituras. Saía com gosto destes cercadinhos, destas áreas onde a canção já tem forma definida, e estava sempre disposto a improvisar música, inclusive com gente com quem nunca havia antes tocado. N’A Casa de Vidro, por ocasião do aniversário do Rheuther, em 16 de Agosto de 2024, fizemos uma baita jam session que marcou época no Ponto de Cultura e ajudou a dar uma impulso para a criação do projeto A CASA DA JAM. Gravamos “Sábado e Domingo”, de Hyldon, presente no álbum de 1975, “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, com Artu, Bernas, Kíron, Marquinhos, Rheuter, Vreno e Bruno. Na ocasião, Bruno escreveu: “Se tivéssemos combinado antes não teria sido tão divertido: a vida é mesmo repleta de surpresas.”

Outra jam ocorreu no evento OCLAM NAS CASAS: Afrika Billy, Art, Léo Maria e Bruno Duarte na Casa de Vidro (13/09/2024) brincaram juntos com o “Apaixonado Blues”, de Bruno Duarte e Wladimir Saldanha:
Companheiro de vários rolês culturais, Bruno esteve comigo recentemente no show de Lúcio Maia, guitarrista do Nação Zumbi, no Shiva, em Março de 2025, foi ele que me convenceu a ir tietar o músico; a foto de meu encontro com um dos magos das 6 cordas que mais admiro no Brasil foi Bruno que tirou:
Bruno era também muito cinéfilo, escrevia literatura, adorava poesia e era adepto da pirataria construtiva. Em um de nossos últimos encontros, falou com entusiasmo do curso de escrita criativa de Carol Bensimon que estava seguindo, e fez questão de me passar os arquivos para que eu também aproveitasse disso, e desatou a falar sobre a obra de David Lynch, recentemente falecido. Era um artista repleto de futuro, um ser humano repleto de ardor, uma perda difícil de mensurar e dimensionar, que suscita homenagens de quem o conheceu durante esta vida-sopro que tão cedo foi apagada.
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Publicado em: 29/07/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia